quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Valor - 2/10/09

Indústria de PCs projeta o melhor trimestre da história

Expectativa é de que vendas de Natal garantam recuperação em ano que começou fraco

Talita Moreira, André Borges, Gustavo Brigatto, Cibelle Bouças e Murillo Camarotto, de São Paulo e do Recife

No início do ano, a combinação de dólar valorizado e crédito escasso desenhou um cenário assustador para a indústria de computadores. Mas, se as expectativas dos fabricantes e das redes varejistas se confirmarem, o último trimestre de 2009 vai apagar a lembrança dos estragos que eventualmente a crise econômica possa ter feito na venda de PCs.

As principais empresas do setor relatam que as vendas já estão num patamar superior ao de 2008, desempenho que deve garantir o melhor quarto trimestre da história do setor.

Projeção da consultoria especializada IT Data indica que serão vendidos 3,34 milhões de PCs entre outubro e dezembro. O número representa crescimento de 26% na comparação com o mesmo período de 2008, quando a crise estourou, elevando preços e reduzindo os prazos de financiamento.

Os sinais de recuperação começaram a aparecer já no segundo trimestre e ficaram mais evidentes nos últimos meses. Levando-se em conta as perspectivas otimistas para o Natal, o resultado deve ser uma queda de 3% nas vendas em 2009, afirma Ivair Rodrigues, diretor de pesquisas da IT Data. A estimativa é bem melhor que a retração de 6% projetada inicialmente pela consultoria.

Nos cálculos da Abinee, a associação da indústria eletroeletrônica, a previsão é de que o setor vá atingir o mesmo volume de vendas do ano passado, de 12 milhões de unidades.

A Positivo Informática, maior fabricante de computadores do país, aposta numa virada de mercado neste fim de ano. Para acompanhar o aumento da demanda, a empresa acelerou o ritmo de suas fábricas. "Ampliamos a capacidade de produção de 240 mil para 330 mil computadores por mês", comenta César Aymoré, diretor de marketing.

Mesmo com os efeitos da crise, a Positivo vendeu 765 mil PCs na primeira metade do ano, superando as 756 mil unidades vendidas nos primeiros seis meses de 2008, período em que o mercado de computadores não via sombra de queda nas vendas. Durante todo o ano de 2008, a companhia vendeu 1,6 milhão de máquinas.

Projetos de inclusão digital nas três esferas de governo foram decisivos para sustentar o desempenho da Positivo até junho. Encomendas do setor público e do segmento empresarial impediram que o mercado de computadores tivesse uma retração ainda maior nos primeiros meses do ano. Agora, com os consumidores voltando às lojas, a indústria de PCs ganha fôlego para acelerar seu crescimento.

"Os pedidos empresariais, seja da iniciativa privada ou do governo, estão muito bons neste ano. E no quarto trimestre existe uma expansão natural das vendas para o varejo. A perspectiva é de crescimento", afirma o vice-presidente comercial da Itautec, Claudio Vita. Sem revelar números, o executivo diz que a empresa fechou o terceiro trimestre com volume de vendas muito próximo ao obtido no mesmo período do ano passado. A expectativa é de encerrar o ano com resultado igual ou superior ao de 2008.

A Itautec, que tem produção focada no mercado empresarial, encerrou o terceiro trimestre do ano com uma carteira de pedidos para entrega até o primeiro trimestre de 2010, volume que Vita considera fora do normal.

Com o objetivo de aproveitar o esperado crescimento das vendas no segmento varejista, a Itautec elevou a produção de notebooks. Os computadores portáteis e ultraportáteis têm sido o principal motor das vendas do setor, enquanto os desktops - micros de mesa tradicionais - têm perdido participação no mercado.

Segundo informações da empresa de pesquisas IDC, as vendas de notebooks e netbooks aumentaram 26,6% nos primeiros seis meses de 2009, enquanto o volume de desktops comercializados recuou 30,4%.

Por enquanto, os computadores de mesa representam 60% do mercado brasileiro. Com a procura crescente pelos portáteis, a expectativa é de que a participação dos desktops diminua para 50% nos primeiros meses de 2010, afirma o gerente de compras de informática do grupo Pão de Açúcar, Avelino Nogueira. Segundo Aymoré, da Positivo, os laptops podem atingir a metade das vendas da empresa já no quarto trimestre.

A expectativa de fabricantes e varejistas é de que os notebooks e netbooks sejam vedetes das vendas de fim de ano, ajudando a recuperar o vigor da indústria.

A coreana LG espera comemorar neste ano o Natal que não teve em 2008. A empresa entrou no mercado de PCs em agosto do ano passado com a produção de portáteis, mas foi pega pela turbulência econômica logo em seguida. "Vai ser nosso primeiro Natal com produção plena" diz Fernando Fraga, gerente de produtos da linha de notebooks e netbooks. "O dólar caiu, o crédito aumentou e as pessoas estão voltando a consumir."

De olho nas vendas de fim de ano, a Hewlett-Packard (HP) vai inaugurar oito lojas com a bandeira "HP Store" no país no último trimestre. Pelo modelo, a companhia fecha acordo com um varejista, que passa a vender exclusivamente produtos da empresa. Pelo menos outras oito unidades já estão funcionando.

"Para nós, o ano de 2009 tem sido excelente", afirma o gerente sênior de marketing da Dell, Fábio Lemos. "No Brasil e na América Latina, a companhia não sentiu os efeitos da crise."

Sem revelar números, ele afirma que a Dell tem apresentado crescimento constante em suas vendas desde o início do ano. A expectativa é de que esse desempenho se repetirá no quarto trimestre. A companhia americana tem procurado ampliar sua presença nas grandes redes varejistas, movimento que pode lhe ajudar a aproveitar a retomada das vendas para o consumidor comum.

A Elcoma, fabricante de PCs em Pernambuco, deve dobrar a produção nos três últimos meses de 2009 para suprir as encomendas, que voltaram ao patamar pré-crise. O ritmo deve aumentar 30% em relação ao terceiro trimestre, afirma o presidente da companhia, Júlio Gil Freire. Apesar disso, o executivo diz que o cenário é de "otimismo calibrado".

Para reforçar a produção, a fabricante pretende contratar funcionários temporários, porém a prioridade será o aumento do número de turnos de trabalho. Apesar do cenário melhor, Freire revela certa cautela em relação a contratações efetivas, principalmente após as dificuldades enfrentadas no fim do ano passado e na primeira metade deste ano.

Volumes maiores de vendas, contudo, não significam melhores margens de lucro, observa Ronaldo Miranda, diretor da área de tecnologia da informação (TI) da Samsung. A empresa, que fornece discos rígidos, monitores e drives de DVD aos fabricantes de computadores, está readequando preços após a queda verificada no valor dos produtos no auge da crise. "O momento é de recomposição do preço, mas a margem ainda está sacrificada", diz.

Miranda comemora a melhora no horizonte. "É uma recuperação fantástica", diz. Ele alerta, no entanto, que pode haver falta de componentes no quarto trimestre, tendo em vista que os fabricantes não se prepararam para um cenário mais otimista. Com a ampliação dos turnos de produção, Miranda afirma que a Samsung poderá atender 90% da demanda de seus clientes. Segundo ele, no entanto, a empresa não terá condições de atender a pedidos extras que eventualmente não puderem ser supridos pela concorrência.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Será que o mercado está pronto para o Kindle?


Como se sabe, o leitor eletrônico Kindle, da Amazon, começará a ser distribuído no Brasil semana que vem, assim como em outros cem países. É um grande passo para a Humanidade, pois detona de vez a batalha pelos milhões de consumidores de livros, revistas, jornais etc etc. Sinal de que, como diriam os estrategistas do setor, finalmente o mercado está maduro para esse produto. O termômetro, claro, é o consumo. A Amazon vende 48 livros digitais para cada cem livros "reais". Já foi bem menos, e a tendência é que essa distância fique cada vez menor. A Amazon tem colaborado com isso, puxando para baixo o preço dos seus aparelhos, derrubando também os preços dos concorrentes. Mais uma vez, tende a levar vantagem o fornecedor que atacar em massa - seja fornecendo o hardware, seja fornecendo o software. Por sinal, os livros estão deixando de ser aquele híbrido de hardware & software, e vão se tornando puro software. O que interessa é o conteúdo, por mais que tenhamos uma relação fetichista com o objeto-livro. (Mas continua a velha máxima: hardware é aquilo que você chuta; software é aquilo que você xinga). Não por acaso, os concorrentes da Amazon, nesse nicho, começaram a mostrar suas armas. A tradicional rede americana de livrarias Barnes & Noble, por exemplo, resolveu se mexer. Vai lançar ainda este mês, nos EUA, a sua versão de leitor eletrônico. O novo aparelho deverá ter uma interessante inovação: os clientes poderão trocar, entre si, cópias digitais dos livros que comprarem. É uma estratégia interessante. Segundo o blog Bits, o aparelho também contará com acesso wi-fi - uma vantagem sobre o Kindle, que só aceita 3G. Ainda não há maiores detalhes sobre o aparelho da B&N, mas quem viver verá. O consumidor e a indústria só têm a ganhar quando existe concorrência. E vem mais por aí. Taxas de importação prejudicam entrada do produto no país A velocidade da tecnologia frequentemente esbarra na lerdeza das leis. No caso do Kindle, temos uma questão curiosa. O leitor eletrônico custa US$ 279. Mas vamos pagar outros US$ 285 pela importação legal do aparelho. É um baita incentivo à importação ilegal, digamos assim. É uma história que se repete.
Ora, se o futuro está na tecnologia digital, dificultar o acesso a aparelhos eletrônicos é algo, no mínimo, anacrônico. E ainda bem que a venda é direta. Se tivéssemos que envolver importadores ou distribuidores no negócio, o Kindle sairia por uns R$ 1.600, no mínimo. Esse tipo de desvio, tão ao gosto do mercado brasileiro, acontece muito com as câmeras digitais. Por conta de impostos, o preço final de alguns modelos contém até 60% em impostos brasileiros, segundo me disseram alguns fabricantes durante a feira PhotoImage, em São Paulo, mês passado. Assim fica difícil ser feliz.